Sempre que podia estava lá sentado na cerca ao lado da porteira logo que o sol dava as caras.
Ele olhava para o horizonte meio escurecido de um lado e lilás do outro.
Como ele, os pássaros também já estavam ativos sob o clima da manhã. Sentindo em seus braços o sopro fresco da brisa da manhã e em sua face os primeiros calores do sol.
Via sempre a sua frente os campos e o cafezal mais ao alto a direita que o aguardava para mais um dia, ansioso por suas mãos grossas da derriçagem dos grãos dos seus cafés.
De um sobressalto pulava da cerca e ia caminhando vigorosamente em direção ao seu eito.
O pasto naqueles dias estava alto, sentia e ouvia o barulho do mato roçar a barra de sua calça surrada do trabalho.
Naquele dia, porém havia algo diferente no ar, parecia que o mundo parara, o sol estava do mesmo jeito de sempre, porém nenhum canto de pássaro soava em seu ouvido, tampouco o vento tocava o sua face, e o seu cafezal ?
Sentiu uma certa agonia em seu peito que lhe apertava a garganta sufocando sua respiração.
Sentia tudo esquisito, um certo agito em sua mente cresceu e a confusão de seus pensamentos já lhe fazia transpirar.
Desta vez pulou rápido de sua cerca e começou a correr desesperado para onde deveria estar seu cafezal.
Quanto mais corria, mais longe ficava o morro onde ficava seu cafezal deveria estar aguardando.
Seu coração já não permitia ver mais nada, cansado de correr em sua busca inútil foi parando, parando aos poucos, quando desistindo de alcançar o morro olhou para trás, então aí o pavor se instalou. O desatino e a confusão tomaram conta de sua mente, pois já não enxergava a sua cerca, nem sua velha casa com a paineira que lhe provia a sombra de todo dia.
Sem saber para onde correr e para onde ir percebeu que estava só, sentia-se mais sozinho que qualquer homem já havia estado.
Caiu de joelhos ao chão na grama alta e em seguida deitou de costas com braços abertos olhando para o céu claro.
Neste momento ao fechar os olhos começou vir a calma, sua respiração já não era tão ofegante, aos poucos foi se acalmando mais e mais.
Começou então vir a sua mente imagens de sua infância, começou a lembrar claramente de cenas de quando menino quando brincava com sua mãe na varanda da velha casa, com todos os detalhes lhe vinha o rosto materno, todos os traços e o calor de sua face quente ao beijar-lhe e seu pai com a rude barba a roçar seus finos cabelos.
Foi ainda de olhos fechados lembrando destes doces momentos de infância que sua alma foi ficando tranquila como um grande lago em um final de tarde.
Aos poucos sua mente fora voltando como de um transe, recobrando o valor de suas lembranças do passado e a rotina dos seus dias e tudo aquilo que nunca conhecera além dos cafezais.
Naquele momento sentia a brisa na sua pele e foi abrindo os olhos devagar e depois estendendo os braços num espreguiçar mais cheio de alma que nunca, sentou-se na campina e olhando a sua volta percebeu que tudo nunca havia dali saído, o morro, o cafezal e tudo mais.
Tudo mais … mas diferente, os tons não eram os mesmos,no assovio dos pássaros lhe soava outra música.
Algo mudara, tudo mudara, ele mudara.
Depois daquele transe percebeu sua vida além das pastagens, desde então cercas e morros já não mais lhe cercariam.
Naquela experiência a cerca já não era seu único mirante e o cafezal tampouco seu único destino.
Sim, ele mudara.
Marcio Lago
Foto de destaque gerada por IA baseada no texto.







