Categoria: Textos Muito Loucos

Textos que não tem nenhum compromisso com a lógica ou sobriedade mental

Conto Estranho

Por Marcio Lago — Dezembro de 2023
Talvez a primeira tragédia do homem seja o medo da morte. Isto porque, tão logo percebemos a vida, tememos perdê-la. Muito menos pelo valor que damos a ela, mas sim por não sabermos o que vem em sua ausência.

Enredo sinistro.

Nando era um pai de família, tinha um casal de filhos, Amanda e Carlos, ele já estava um tanto farto de trabalhar. Chegando aos 60 anos, trabalhando desde os 11 anos, não via a hora dos filhos começarem a resolver suas vidas, e assim, poder finalmente diminuir o ritmo.

Neste momento da vida buscava a justiça para tentar adiantar sua aposentadoria, já que trabalhou por alguns períodos sem qualquer registro oficial e em alguns trabalhos que poderiam ser reconhecidos como regime especial de insalubridade.

Durante o processo foi procurado por investigadores, eles buscavam identificar membros de um grupo que com alguma colaboração de servidores públicos, fraudavam perícias em favor das empresas processadas. Na maioria destes processos é necessária a apresentação de testemunhas e depois de serem ouvidas, não é incomum o juiz pedir um perito do trabalho que visite a empresa e verifique se as condições de trabalho correspondem ao motivo da causa no processo.

Como o trabalhador é sempre a parte de menor poder, ele depende muito de uma perícia bem feita para conseguir ter sucesso e ter chances de ganhar a causa.

Nando foi convencido que a identificação das pessoas seria algo de baixo risco, pois ele só precisava marcar um encontro para entregar alguns documentos e sair do local imediatamente. Mas possivelmente, os tentáculos do grupo contavam com algum membro infiltrado na investigação, pois a gangue ciente do flagrante, montou uma emboscada.

Os golpistas foram identificados pelos investigadores, porém eles estavam fortemente armados e em grande número e passaram a caçar os policiais e Nando, e aí como se diz: “o couro comeu”, tiro pra todo lado.

Nando que jamais imaginava esta possibilidade de ser identificado pelos bandidos , começou a correr e depois de uns 100 metros foi cercado por alguns elementos da gangue.

Naquele momento o mundo parou, um tiro foi disparado contra ele, era como se a velocidade da bala estivesse em câmera lenta, e todos momentos e pessoas desfilarem em sua mente.

Após se levantar passou a mão na cabeça e viu um pouco de sangue. “Ufa, foi de raspão, graças a Deus!”.

Então caiu exausto no mato um pouco alto daquele terreno.

A estranha conhecida.

Passado um tempo na grama. Nando levantou a cabeça devagar, ainda meio tonto e de repente uma estranha conhecida, que se identificou como Arlete e lhe estendeu a mão, então ele se levantou com um pouco de ajuda.

Nando passou de novo a mão na cabeça onde foi o tiro, mas estranhamente não havia mais sangue, então veio o desespero!

— Eu morri! Meu Deus, não! Onde estão meus filhos? Minha família? — Gritava.

A estranha conhecida foi tentando acalmá-lo e devagar foi levando Nando para um local próximo.

Arlete era alta, vestida toda de branco como uma enfermeira, tinha uma postura de modelo, era bonita, cabelos louros, olhos claros, muito simpática e tranquila. A semelhança com alguém muito familiar trouxe segurança para Nando se acalmar, e enfim começar a escutar a moça.

Ainda tinha dúvidas se estava vivo ou morto, se desesperou novamente quando se viu deitado em um tipo de maca, que tinha um tipo de cabeceira, ele lembrou de algo do que vemos em filmes, onde deitam os defuntos para autópsia.

— Meu Deus! Eu morri, eu morri! — Voltou a desesperar.

Neste momento Nando adormeceu e não viu mais nada.

A Vila

O dia era ensolarado e após tomar um café em um lugar que parecia público, Nando foi apresentado a um homem de meia idade, ele também lhe parecia familiar, ele se chamava Diogo.

Diogo começou a guiar Nando pela vila, ele ainda estava triste, em seus pensamentos, ainda não se conformava, de como pôde morrer de forma tão idiota. Ele que nunca se envolveu em nada nesse submundo criminoso, de repente foi cercado por pessoas armadas onde acabou tomando um tiro, mas enfim tinha que se conformar, por estar provavelmente morto, então conforme caminhava e conversava com Diogo, foi ficando mais calmo.

A vila por onde caminhavam era simples, não parecia em nada com céu do imaginário cristão, nada espetacular, simplesmente uma vila.

As coisas nesta vila eram um pouco mais brilhantes que o normal, notou também que muitas casas tinham diferentes tonalidades de uma cor Ouro Antigo, só quem em tons mais vivos.

Diogo começou a falar sobre como era o local onde estavam, que era um lugar meio de passagem e que seria necessário a aceitação daqueles que lá estavam que haviam desencarnado, e que havia alguns trabalhos a serem feitos neste período em que ficaria nesta vila.

O trabalho mais duro.

A unidade tempo, é algo realmente incompreensível aos humanos, pois de fato, tudo é relativo à la Einstein, dada a estranheza que notou do tempo que parecia estar lá.

Nando já se encontrava feliz e havia entendido a transitoriedade do que chamamos vida, algo que está além, muito além do que temos como corpo físico.

O primeiro trabalho espiritual seria com ele Nando, pois precisava estar muito preparado para a próxima missão que receberia.

Sua missão seria, de uma maneira muito especial, ajudar as pessoas próximas que ficaram na “Terra” se convencerem de que estava tudo bem com ele após sua “passagem”, isto para elas continuarem suas vidas plenamente felizes.

A começar pela sua filha Amanda e depois todos outros que lhe nutriam muito apego.

Assim foi, ainda meio dolorosamente, foi “conversar” com sua filha Amanda e depois com sua amiga Rosa, e outras pessoas em lugares e em situações distintas. Nando desconhecia como funcionava esta comunicação, mas enfim foi cumprir seus trabalhos.

Assim passaram-se mais alguns fatos, Nando avistou na vila alguns que estavam com ele no momento da emboscada.

– Também morreram? Pensou.

Naquele dia também encontrou outras pessoas conhecidas certamente de outros tempos, mas nenhum parente…

Porque não via seu irmão Alfredo, e seu pai Joaquim? Cadê?

Então algumas “fichas” foram caindo!!!

O Retorno

Dada a falta de alguns personagens importantes que deveria encontrar no “céu”, Nando começou a pensar se não estaria em algum tipo de sonho, daqueles que não se acorda, onde você vê sua cama, vê você, mas não consegue sequer se mover.

Nando ainda vivia na vila, mas tinha a sensação de que muito tempo já havia passado e encontrou outros conhecidos, caminhou com outros personagens da sua vida, mas de repente algo lhe puxou para o seu quarto, será que estava dormindo e tendo um infarto, um refluxo ou o que?

Voltou a consciência em sua cama com a respiração ofegante, desesperado com tudo aquilo que viveu de forma muito realística, como se fora um presságio.

Continuou no mesmo sonho algumas vezes seguidas naquela noite, outras passagens também muito claras, Nando amanheceu o dia com muito medo.

Voltamos a reflexão do início, adoramos a vida mesmo que as vezes ela esteja enfadonha.

Muitos dos leitores desta narrativa poderiam ficar decepcionados até mesmo “putos”, imaginando uma continuidade transcendental.

Todos imaginamos um céu, um brilho, algo divino além da divindade que cultivamos em vida, somos o que somos em qualquer lugar, a narração foi uma sensação real de morte.

Nada muda muito além do cenário, o grau de nossas lentes, assim como os olhos de quem nos cerca.

Assim foi.

Marcio Lago

Somente a imagem gerada por IA, só porque artes visuais é meu fraco.

Alma Doente (2010-2017)

Era um dia de sol e Gumersindo, resolveu dar aquela passada na lotérica para fazer sua “fezinha”. No seu caminho um guri roubou o bilhete que aproveitaria pra conferir, o garoto levara também todos os seus documentos.

Ora no início ficou inconformado pela perda dos documentos, mas qual foi sua surpresa quando ao chegar a lotérica os seus números da sorte haviam saído no primeiro prêmio.

‘Oh azar!! Pobre é uma merda! Quando vai sair da dureza, acontece uma coisa dessas’, ficou furioso mesmo, de repente ele meio católico, deixou escapar: “Eu daria minha’alma ao diabo pra encontrar aquele menino com o bilhete”

– Promessa é dívida – Falou um senhor a suas costas!

Gumer, como era conhecido por ali, arrepiou-se todo e virou para ver de onde vinha a voz, qual foi sua surpresa ao se deparar com um antigo professor do colégio.

– Como é?

– Promessa é dívida, olha ali o menino que roubou sua carteira.

– Obrigado mesmo!

Esqueceu até mesmo o que conversava e saiu em disparada atrás do garoto, tudo aconteceu tão rápido, que nem deu para o garoto usufruir do fruto de seu ilícito, tomou uns tapas e devolveu a carteira.

Mais que depressa Gumersindo voltou a lotérica e foi conferir seu bilhete.

– Batata!! Estou rico!!’ Tirei a “sorte grande”!.

Estranhamente o velho que apontou o garoto estava saindo do estabelecimento, virou-se e disse:

– Até logo, Gumersindo.

Ele se arrepiou novamente, há tanto não o via e o chamou-me pelo nome. Mas ele estava tão atordoado com o prêmio, já sonhando qual seria a primeira coisa a fazer que esqueceu o velho!

Os dias e anos passaram e Gumersindo fez questão de esquecer da vida meio sofrida que tinha, mudou-se de cidade e fora morar em uma vila de casas finas, afinal tornara-se um endinheirado.

Certo dia precisou de um jardineiro para cuidar da paisagem de sua mansão, pois não estava contente com a aparência da mesma, vários responderam ao anúncio colocado pelo seu governante particular

Do novo empregado Gumer mal sabia o nome, porém vendo o fruto do seu trabalho ficou inquieto, em tão pouco tempo a aparência de sua mansão mudara totalmente.

Até que um dia numa manhã de sábado ele trocou algumas palavras com seu jardineiro.

– Bela manhã, não é? Disse Gumer.

– É mesmo, tem feito um tempo bom para as plantas nos últimos dias, sol de manhã e tempo fresco a tarde.

– Posso te perguntar uma coisa ? Perguntou Gumer.

– Claro ! Respondeu o jardineiro.

– Tenho a impressão que eu te conheço de outro lugar …

– Impossível ! Nossos mundos são bem diferentes, sou de origem humilde, certamente nunca nos encontramos.

– Minha origem também não é sofisticada, tive uma onda de sorte que trouxe esta vida que tenho.

– Desculpe falar senhor, mas penso que sorte não existe, o que existe são trocas. Trocamos uma coisa de valor por outra também de valor. Disse o simples jardineiro.

– Como assim? Argumentou o Gumer.

– Veja, eu troquei a possibilidade de uma vida abastada e de muito status, por todos os dias estar em jardim florido, as duas tem seu valor, ‘sorte’ a minha ser jardineiro… Brincou seu Antonio.

O tempo passou e Gumer mantinha-se acabrunhado com relação ao seu Antonio, os jardins cada vez mais belos, sua mansão cada vez mais linda e ele Gumer, cada vez mais triste.

Pouco tempo depois de ver sua rotina modificada pelo dinheiro, ele passou a angariar também alguns problemas.

Abandonara seu antigo trabalho e com toda a dinherama investida dedicou-se ao ócio.

Sua esposa e seus filhos entraram em sociedade com a Ócio S.A.

Hermelinda dedicava-se as unhas e cabelos e as sacolas. Seus filhos apesar de estarem nas melhores escolas tinham muito pouco a apresentar de conteúdo.

Muito tempo passou seus filhos cresceram, tornaram-se jovens vazios cheios de nada, sua esposa já não era sua esposa definitivamente, pois nem fisicamente dava pra reconhecer tamanha quantidade de alterações em sua plástica.

Todo este ócio e gozo tem seu preço, agora Gumer já não era tão rico, ele nunca foi bom pra lidar com dinheiro, nem quando era pouco, que dirá no muito

Entrou em algumas sociedades e perdera muito do seu capital.

As coisas começaram a sair do controle e sua vida começou a desmoronar, sua esposa muito bem relacionada, no ‘high society’ percebendo o barco à deriva com enormes buracos em seu casco, pulou para outro barco bem abastado, arrumou um outro namorado rico e levou consigo seus filhos, que já estavam também descontentes pelo fato do pai não conseguir bancar suas proezas.

E assim foi que ele foi se desfazendo de tudo, quando por fim passou ter uma pequena renda que lhe sobrara e uma casa simples, as grandes casas desapareceram, os suntuosos jardins foram trocados por uma única roseira e algumas margaridas.

Porém somente uma condição não mudou, seu jardineiro não o abandonara, a cada semana ia cuidar de sua roseira.

Já bem envelhecido e bem doente, o jardineiro veio ao seu leito, ele já não pagava seu Antonio havia muito tempo.

– Que sorte a minha! Ironizou Gumer! Fazendo referência àquela conversa que tivera no passado com seu Antonio.

-Realmente, tirou a sorte grande! Brincou seu Antonio com sorriso sarcástico.

-Quem é você seu Antonio, que ainda depois de tudo ainda vem cuidar do meu jardim? Perguntou tossindo de forma fraca.

-Quem te disse que cuido do seu jardim? Estou cuidando da minha sorte grande!

-Como assim?

-Da sua vida, você é o último que venho buscar, sua mulher e filhos já são meus!

Neste momento o rosto do seu Antonio se transfigurou, vira a face daquele professor na lotérica e depois vira a figura mais diabólica que sequer conseguiria imaginar.

-Então é você!! Falou já de sobressalto e quase sem vida.

Pulara da cama suando, nem acreditava.

-Que sonho! Pensou.

Tomou seu banho e trocou-se, sua mulher fazia o café e ele correu e abracou-a e disse:

-Minha vida!

Sua mulher ficou assustada e ia dizendo:

-Daria tudo…

Foi então que Gumer delicadamente pois sua mão fechando sua boca e em seguida beijando-a disse:

-Nem pense isso!

Marcio Lago

Imagem do post gerado por IA, só porque sou péssimo em artes gráficas!

© 2026 Lago In

Theme by Anders NorenUp ↑