Mês: agosto 2025

Conto Estranho

Por Marcio Lago — Dezembro de 2023
Talvez a primeira tragédia do homem seja o medo da morte. Isto porque, tão logo percebemos a vida, tememos perdê-la. Muito menos pelo valor que damos a ela, mas sim por não sabermos o que vem em sua ausência.

Enredo sinistro.

Nando era um pai de família, tinha um casal de filhos, Amanda e Carlos, ele já estava um tanto farto de trabalhar. Chegando aos 60 anos, trabalhando desde os 11 anos, não via a hora dos filhos começarem a resolver suas vidas, e assim, poder finalmente diminuir o ritmo.

Neste momento da vida buscava a justiça para tentar adiantar sua aposentadoria, já que trabalhou por alguns períodos sem qualquer registro oficial e em alguns trabalhos que poderiam ser reconhecidos como regime especial de insalubridade.

Durante o processo foi procurado por investigadores, eles buscavam identificar membros de um grupo que com alguma colaboração de servidores públicos, fraudavam perícias em favor das empresas processadas. Na maioria destes processos é necessária a apresentação de testemunhas e depois de serem ouvidas, não é incomum o juiz pedir um perito do trabalho que visite a empresa e verifique se as condições de trabalho correspondem ao motivo da causa no processo.

Como o trabalhador é sempre a parte de menor poder, ele depende muito de uma perícia bem feita para conseguir ter sucesso e ter chances de ganhar a causa.

Nando foi convencido que a identificação das pessoas seria algo de baixo risco, pois ele só precisava marcar um encontro para entregar alguns documentos e sair do local imediatamente. Mas possivelmente, os tentáculos do grupo contavam com algum membro infiltrado na investigação, pois a gangue ciente do flagrante, montou uma emboscada.

Os golpistas foram identificados pelos investigadores, porém eles estavam fortemente armados e em grande número e passaram a caçar os policiais e Nando, e aí como se diz: “o couro comeu”, tiro pra todo lado.

Nando que jamais imaginava esta possibilidade de ser identificado pelos bandidos , começou a correr e depois de uns 100 metros foi cercado por alguns elementos da gangue.

Naquele momento o mundo parou, um tiro foi disparado contra ele, era como se a velocidade da bala estivesse em câmera lenta, e todos momentos e pessoas desfilarem em sua mente.

Após se levantar passou a mão na cabeça e viu um pouco de sangue. “Ufa, foi de raspão, graças a Deus!”.

Então caiu exausto no mato um pouco alto daquele terreno.

A estranha conhecida.

Passado um tempo na grama. Nando levantou a cabeça devagar, ainda meio tonto e de repente uma estranha conhecida, que se identificou como Arlete e lhe estendeu a mão, então ele se levantou com um pouco de ajuda.

Nando passou de novo a mão na cabeça onde foi o tiro, mas estranhamente não havia mais sangue, então veio o desespero!

— Eu morri! Meu Deus, não! Onde estão meus filhos? Minha família? — Gritava.

A estranha conhecida foi tentando acalmá-lo e devagar foi levando Nando para um local próximo.

Arlete era alta, vestida toda de branco como uma enfermeira, tinha uma postura de modelo, era bonita, cabelos louros, olhos claros, muito simpática e tranquila. A semelhança com alguém muito familiar trouxe segurança para Nando se acalmar, e enfim começar a escutar a moça.

Ainda tinha dúvidas se estava vivo ou morto, se desesperou novamente quando se viu deitado em um tipo de maca, que tinha um tipo de cabeceira, ele lembrou de algo do que vemos em filmes, onde deitam os defuntos para autópsia.

— Meu Deus! Eu morri, eu morri! — Voltou a desesperar.

Neste momento Nando adormeceu e não viu mais nada.

A Vila

O dia era ensolarado e após tomar um café em um lugar que parecia público, Nando foi apresentado a um homem de meia idade, ele também lhe parecia familiar, ele se chamava Diogo.

Diogo começou a guiar Nando pela vila, ele ainda estava triste, em seus pensamentos, ainda não se conformava, de como pôde morrer de forma tão idiota. Ele que nunca se envolveu em nada nesse submundo criminoso, de repente foi cercado por pessoas armadas onde acabou tomando um tiro, mas enfim tinha que se conformar, por estar provavelmente morto, então conforme caminhava e conversava com Diogo, foi ficando mais calmo.

A vila por onde caminhavam era simples, não parecia em nada com céu do imaginário cristão, nada espetacular, simplesmente uma vila.

As coisas nesta vila eram um pouco mais brilhantes que o normal, notou também que muitas casas tinham diferentes tonalidades de uma cor Ouro Antigo, só quem em tons mais vivos.

Diogo começou a falar sobre como era o local onde estavam, que era um lugar meio de passagem e que seria necessário a aceitação daqueles que lá estavam que haviam desencarnado, e que havia alguns trabalhos a serem feitos neste período em que ficaria nesta vila.

O trabalho mais duro.

A unidade tempo, é algo realmente incompreensível aos humanos, pois de fato, tudo é relativo à la Einstein, dada a estranheza que notou do tempo que parecia estar lá.

Nando já se encontrava feliz e havia entendido a transitoriedade do que chamamos vida, algo que está além, muito além do que temos como corpo físico.

O primeiro trabalho espiritual seria com ele Nando, pois precisava estar muito preparado para a próxima missão que receberia.

Sua missão seria, de uma maneira muito especial, ajudar as pessoas próximas que ficaram na “Terra” se convencerem de que estava tudo bem com ele após sua “passagem”, isto para elas continuarem suas vidas plenamente felizes.

A começar pela sua filha Amanda e depois todos outros que lhe nutriam muito apego.

Assim foi, ainda meio dolorosamente, foi “conversar” com sua filha Amanda e depois com sua amiga Rosa, e outras pessoas em lugares e em situações distintas. Nando desconhecia como funcionava esta comunicação, mas enfim foi cumprir seus trabalhos.

Assim passaram-se mais alguns fatos, Nando avistou na vila alguns que estavam com ele no momento da emboscada.

– Também morreram? Pensou.

Naquele dia também encontrou outras pessoas conhecidas certamente de outros tempos, mas nenhum parente…

Porque não via seu irmão Alfredo, e seu pai Joaquim? Cadê?

Então algumas “fichas” foram caindo!!!

O Retorno

Dada a falta de alguns personagens importantes que deveria encontrar no “céu”, Nando começou a pensar se não estaria em algum tipo de sonho, daqueles que não se acorda, onde você vê sua cama, vê você, mas não consegue sequer se mover.

Nando ainda vivia na vila, mas tinha a sensação de que muito tempo já havia passado e encontrou outros conhecidos, caminhou com outros personagens da sua vida, mas de repente algo lhe puxou para o seu quarto, será que estava dormindo e tendo um infarto, um refluxo ou o que?

Voltou a consciência em sua cama com a respiração ofegante, desesperado com tudo aquilo que viveu de forma muito realística, como se fora um presságio.

Continuou no mesmo sonho algumas vezes seguidas naquela noite, outras passagens também muito claras, Nando amanheceu o dia com muito medo.

Voltamos a reflexão do início, adoramos a vida mesmo que as vezes ela esteja enfadonha.

Muitos dos leitores desta narrativa poderiam ficar decepcionados até mesmo “putos”, imaginando uma continuidade transcendental.

Todos imaginamos um céu, um brilho, algo divino além da divindade que cultivamos em vida, somos o que somos em qualquer lugar, a narração foi uma sensação real de morte.

Nada muda muito além do cenário, o grau de nossas lentes, assim como os olhos de quem nos cerca.

Assim foi.

Marcio Lago

Somente a imagem gerada por IA, só porque artes visuais é meu fraco.

Alma Doente (2010-2017)

Era um dia de sol e Gumersindo, resolveu dar aquela passada na lotérica para fazer sua “fezinha”. No seu caminho um guri roubou o bilhete que aproveitaria pra conferir, o garoto levara também todos os seus documentos.

Ora no início ficou inconformado pela perda dos documentos, mas qual foi sua surpresa quando ao chegar a lotérica os seus números da sorte haviam saído no primeiro prêmio.

‘Oh azar!! Pobre é uma merda! Quando vai sair da dureza, acontece uma coisa dessas’, ficou furioso mesmo, de repente ele meio católico, deixou escapar: “Eu daria minha’alma ao diabo pra encontrar aquele menino com o bilhete”

– Promessa é dívida – Falou um senhor a suas costas!

Gumer, como era conhecido por ali, arrepiou-se todo e virou para ver de onde vinha a voz, qual foi sua surpresa ao se deparar com um antigo professor do colégio.

– Como é?

– Promessa é dívida, olha ali o menino que roubou sua carteira.

– Obrigado mesmo!

Esqueceu até mesmo o que conversava e saiu em disparada atrás do garoto, tudo aconteceu tão rápido, que nem deu para o garoto usufruir do fruto de seu ilícito, tomou uns tapas e devolveu a carteira.

Mais que depressa Gumersindo voltou a lotérica e foi conferir seu bilhete.

– Batata!! Estou rico!!’ Tirei a “sorte grande”!.

Estranhamente o velho que apontou o garoto estava saindo do estabelecimento, virou-se e disse:

– Até logo, Gumersindo.

Ele se arrepiou novamente, há tanto não o via e o chamou-me pelo nome. Mas ele estava tão atordoado com o prêmio, já sonhando qual seria a primeira coisa a fazer que esqueceu o velho!

Os dias e anos passaram e Gumersindo fez questão de esquecer da vida meio sofrida que tinha, mudou-se de cidade e fora morar em uma vila de casas finas, afinal tornara-se um endinheirado.

Certo dia precisou de um jardineiro para cuidar da paisagem de sua mansão, pois não estava contente com a aparência da mesma, vários responderam ao anúncio colocado pelo seu governante particular

Do novo empregado Gumer mal sabia o nome, porém vendo o fruto do seu trabalho ficou inquieto, em tão pouco tempo a aparência de sua mansão mudara totalmente.

Até que um dia numa manhã de sábado ele trocou algumas palavras com seu jardineiro.

– Bela manhã, não é? Disse Gumer.

– É mesmo, tem feito um tempo bom para as plantas nos últimos dias, sol de manhã e tempo fresco a tarde.

– Posso te perguntar uma coisa ? Perguntou Gumer.

– Claro ! Respondeu o jardineiro.

– Tenho a impressão que eu te conheço de outro lugar …

– Impossível ! Nossos mundos são bem diferentes, sou de origem humilde, certamente nunca nos encontramos.

– Minha origem também não é sofisticada, tive uma onda de sorte que trouxe esta vida que tenho.

– Desculpe falar senhor, mas penso que sorte não existe, o que existe são trocas. Trocamos uma coisa de valor por outra também de valor. Disse o simples jardineiro.

– Como assim? Argumentou o Gumer.

– Veja, eu troquei a possibilidade de uma vida abastada e de muito status, por todos os dias estar em jardim florido, as duas tem seu valor, ‘sorte’ a minha ser jardineiro… Brincou seu Antonio.

O tempo passou e Gumer mantinha-se acabrunhado com relação ao seu Antonio, os jardins cada vez mais belos, sua mansão cada vez mais linda e ele Gumer, cada vez mais triste.

Pouco tempo depois de ver sua rotina modificada pelo dinheiro, ele passou a angariar também alguns problemas.

Abandonara seu antigo trabalho e com toda a dinherama investida dedicou-se ao ócio.

Sua esposa e seus filhos entraram em sociedade com a Ócio S.A.

Hermelinda dedicava-se as unhas e cabelos e as sacolas. Seus filhos apesar de estarem nas melhores escolas tinham muito pouco a apresentar de conteúdo.

Muito tempo passou seus filhos cresceram, tornaram-se jovens vazios cheios de nada, sua esposa já não era sua esposa definitivamente, pois nem fisicamente dava pra reconhecer tamanha quantidade de alterações em sua plástica.

Todo este ócio e gozo tem seu preço, agora Gumer já não era tão rico, ele nunca foi bom pra lidar com dinheiro, nem quando era pouco, que dirá no muito

Entrou em algumas sociedades e perdera muito do seu capital.

As coisas começaram a sair do controle e sua vida começou a desmoronar, sua esposa muito bem relacionada, no ‘high society’ percebendo o barco à deriva com enormes buracos em seu casco, pulou para outro barco bem abastado, arrumou um outro namorado rico e levou consigo seus filhos, que já estavam também descontentes pelo fato do pai não conseguir bancar suas proezas.

E assim foi que ele foi se desfazendo de tudo, quando por fim passou ter uma pequena renda que lhe sobrara e uma casa simples, as grandes casas desapareceram, os suntuosos jardins foram trocados por uma única roseira e algumas margaridas.

Porém somente uma condição não mudou, seu jardineiro não o abandonara, a cada semana ia cuidar de sua roseira.

Já bem envelhecido e bem doente, o jardineiro veio ao seu leito, ele já não pagava seu Antonio havia muito tempo.

– Que sorte a minha! Ironizou Gumer! Fazendo referência àquela conversa que tivera no passado com seu Antonio.

-Realmente, tirou a sorte grande! Brincou seu Antonio com sorriso sarcástico.

-Quem é você seu Antonio, que ainda depois de tudo ainda vem cuidar do meu jardim? Perguntou tossindo de forma fraca.

-Quem te disse que cuido do seu jardim? Estou cuidando da minha sorte grande!

-Como assim?

-Da sua vida, você é o último que venho buscar, sua mulher e filhos já são meus!

Neste momento o rosto do seu Antonio se transfigurou, vira a face daquele professor na lotérica e depois vira a figura mais diabólica que sequer conseguiria imaginar.

-Então é você!! Falou já de sobressalto e quase sem vida.

Pulara da cama suando, nem acreditava.

-Que sonho! Pensou.

Tomou seu banho e trocou-se, sua mulher fazia o café e ele correu e abracou-a e disse:

-Minha vida!

Sua mulher ficou assustada e ia dizendo:

-Daria tudo…

Foi então que Gumer delicadamente pois sua mão fechando sua boca e em seguida beijando-a disse:

-Nem pense isso!

Marcio Lago

Imagem do post gerado por IA, só porque sou péssimo em artes gráficas!

A “Arte” da Guerra!

Não é o que você pensou, nenhuma filosofia, nenhuma inspiração. Somente um protesto com que testemunhamos diariamente. Coisa antiga da humanidade que nada de humano tem.

Pincei este pensamento de Galeano do Livro Vila dos Poetas, de Natanael Croneberguer.

Nada que justifique a indecência agora vista ao vivo e a cores, e “online”. Antes tinha-se a vergonha da mentira, hoje a mentira é descoberta, sem disfarce, nada mais realista que este pensamento de Galeano.

Pura verdade, infelizmente!

Vila dos Poetas – Antologia

Acabei de adquirir um exemplar e já estou curtindo, vou voltar aqui para dar notícia e eventualmente postar algum trecho.

Acompanho o perfil @viladospoetas e curto muito, gosto de compartilhar nas minhas redes obras e livros de colegas, acho que quanto mais se compartilhar, mais se escreve e mais se lê. Em se tratando de amantes da literatura e poesia venho notando um comportamento bem legal, que é o de compartilhar a obra dos colegas.

Em cada verso da Vila dos Poetas – Antologia, a sabedoria dos maiores mestres da literatura mundial convida à introspecção e à serenidade. De Rimbaud a Fernando Pessoa, de Emily Dickinson a Machado de Assis, esta cuidadosa seleção de poesias transcende o tempo e nos conduz a um espaço de paz interior. Um refúgio para a alma, onde o amor, a vida e a reflexão se encontram em perfeita harmonia. Encontre consolo e beleza nas palavras que acalmam e despertam a verdadeira essência do ser.

Horizontes – (2010-2017)

Sempre que podia estava lá sentado na cerca ao lado da porteira logo que o sol dava as caras.

Ele olhava para o horizonte meio escurecido de um lado e lilás do outro.

Como ele, os pássaros também já estavam ativos sob o clima da manhã. Sentindo em seus braços o sopro fresco da brisa da manhã e em sua face os primeiros calores do sol.

Via sempre a sua frente os campos e o cafezal mais ao alto a direita que o aguardava para mais um dia, ansioso por suas mãos grossas da derriçagem dos grãos dos seus cafés.

De um sobressalto pulava da cerca e ia caminhando vigorosamente em direção ao seu eito.

O pasto naqueles dias estava alto, sentia e ouvia o barulho do mato roçar a barra de sua calça surrada do trabalho.

Naquele dia, porém havia algo diferente no ar, parecia que o mundo parara, o sol estava do mesmo jeito de sempre, porém nenhum canto de pássaro soava em seu ouvido, tampouco o vento tocava o sua face, e o seu cafezal ?

Sentiu uma certa agonia em seu peito que lhe apertava a garganta sufocando sua respiração.

Sentia tudo esquisito, um certo agito em sua mente cresceu e a confusão de seus pensamentos já lhe fazia transpirar.

Desta vez pulou rápido de sua cerca e começou a correr desesperado para onde deveria estar seu cafezal.

Quanto mais corria, mais longe ficava o morro onde ficava seu cafezal deveria estar aguardando.

Seu coração já não permitia ver mais nada, cansado de correr em sua busca inútil foi parando, parando aos poucos, quando desistindo de alcançar o morro olhou para trás, então aí o pavor se instalou. O desatino e a confusão tomaram conta de sua mente, pois já não enxergava a sua cerca, nem sua velha casa com a paineira que lhe provia a sombra de todo dia.

Sem saber para onde correr e para onde ir percebeu que estava só, sentia-se mais sozinho que qualquer homem já havia estado.

Caiu de joelhos ao chão na grama alta  e em seguida deitou de costas com braços abertos olhando para o céu claro.

Neste momento ao fechar os olhos começou vir a calma, sua respiração já não era tão ofegante, aos poucos foi se acalmando mais e mais.

Começou então vir a sua mente imagens de sua infância, começou a lembrar claramente de cenas de quando menino quando brincava com sua mãe na varanda da velha casa, com todos os detalhes lhe vinha o rosto materno, todos os traços e o calor de sua face quente ao beijar-lhe e seu pai com a rude barba a roçar seus finos cabelos.

Foi ainda de olhos fechados lembrando destes doces momentos de infância que sua alma foi ficando tranquila como um grande lago em um final de tarde.

Aos poucos sua mente fora voltando como de um transe, recobrando o valor de suas lembranças do passado e a rotina dos seus dias e tudo aquilo que nunca conhecera além dos cafezais.

Naquele momento sentia a brisa na sua pele e foi abrindo os olhos devagar e depois estendendo os braços num espreguiçar mais cheio de alma que nunca, sentou-se  na campina  e olhando a sua volta percebeu que tudo nunca havia dali saído, o morro, o cafezal e tudo mais.

Tudo mais … mas diferente, os tons não eram os mesmos,no assovio dos pássaros lhe soava outra música.

Algo mudara, tudo mudara, ele mudara.

Depois daquele transe percebeu sua vida além das pastagens, desde então cercas e morros já não mais lhe cercariam.

Naquela experiência a cerca já não era seu único mirante e o cafezal tampouco seu único destino.

Sim, ele mudara.

Marcio Lago

Foto de destaque gerada por IA baseada no texto.

Primeiro pensei …

Na juventude quase ida e nas paixões não vividas.

Nas pedras no caminho, nas coisas da vida.

Depois pensei …

Em todos os frutos já colhidos, em tudo que plantei.

Do todo, muita coisa foi certa, mesmo eu sem saber ou querer.

Por fim pensei …

Na vida que tenho e no que ainda quero ter e ser.

Estou tranquilo …

De tudo que plantei tenho ainda as raízes e sementes.

Daqui por diante …

Novos plantios, hábitos mais saudáveis.

Mais flores além de frutos.

Marcio Lago

Fernando Pessoa – Poesia e Filosofia

Ao lado de Luís de Camões, dono da obra consagrada por milhares de críticos “Os Lusíadas”Fernando Pessoa leva o título de um dos maiores poetas da língua portuguesa e também de um dos maiores escritores da literatura universal.

Nascido em Lisboa, em junho de 1888, Pessoa ficou muito conhecido pelos seus heterônimos Álvaro de CamposRicardo ReisAlberto Caeiro, além de um semi-heterônimo, Bernardo Soares, que seria o próprio Pessoa, um ajudante de guarda-livros da cidade de Lisboa e autor do “Livro do Desassossego”, uma das obras fundadoras da ficção portuguesa no século 20.

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O mais interessante era a complexidade que o poeta dava aos seus heterônimos. Cada um representava um personagem completo, com biografias próprias, estilos literários distintos e diferentes visões da vida!

Relembre 10 vezes em que, seja por versos, estrofes completas ou poemas inteiros, publicados pelos diferentes personagens, Fernando Pessoa propôs uma reflexão válida até os dias de hoje.

1) “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”

2) “Toda a poesia – e a canção é uma poesia ajudada – reflete o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste”

3) “Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?”

4) “Ter opiniões é estar vendido a si mesmo. Não ter opiniões é existir. Ter todas as opiniões é ser poeta”

5) “Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos se a tivéssemos. O perfeito é o desumano porque o humano é imperfeito”.

6) “Segue o teu destino…
Rega as tuas plantas;
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
de árvores alheias”

7) “Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero”.

Marcio Lago

Nossas sementes (2019)

À medida que vai chegando o comercial “Dia dos Pais”, coloco aqui um texto que escrevi há alguns anos atrás. Segue para inspirar, talvez àqueles que pensam que não vale a pena, será?

Vindos de cima,

eles saem de nós.

Como uma planta,

regada desde a semente.

Enchemos de carinho e atenção,

entregamos nosso tudo.

Quando a flor vira fruto,

começa a desprender.

Nós que vamos vendo

tornarem-se eles mesmos,

vamos ficando dependentes

de um abraço, um carinho ou uma notícia.

Rezamos até o fim das nossas vidas

para que sejam bons, dignos e felizes,

e assim ficarmos em paz com nosso plantar.

Marcio Lago

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