Alma Doente (2010-2017)

Era um dia de sol e Gumersindo, resolveu dar aquela passada na lotérica para fazer sua “fezinha”. No seu caminho um guri roubou o bilhete que aproveitaria pra conferir, o garoto levara também todos os seus documentos.

Ora no início ficou inconformado pela perda dos documentos, mas qual foi sua surpresa quando ao chegar a lotérica os seus números da sorte haviam saído no primeiro prêmio.

‘Oh azar!! Pobre é uma merda! Quando vai sair da dureza, acontece uma coisa dessas’, ficou furioso mesmo, de repente ele meio católico, deixou escapar: “Eu daria minha’alma ao diabo pra encontrar aquele menino com o bilhete”

– Promessa é dívida – Falou um senhor a suas costas!

Gumer, como era conhecido por ali, arrepiou-se todo e virou para ver de onde vinha a voz, qual foi sua surpresa ao se deparar com um antigo professor do colégio.

– Como é?

– Promessa é dívida, olha ali o menino que roubou sua carteira.

– Obrigado mesmo!

Esqueceu até mesmo o que conversava e saiu em disparada atrás do garoto, tudo aconteceu tão rápido, que nem deu para o garoto usufruir do fruto de seu ilícito, tomou uns tapas e devolveu a carteira.

Mais que depressa Gumersindo voltou a lotérica e foi conferir seu bilhete.

– Batata!! Estou rico!!’ Tirei a “sorte grande”!.

Estranhamente o velho que apontou o garoto estava saindo do estabelecimento, virou-se e disse:

– Até logo, Gumersindo.

Ele se arrepiou novamente, há tanto não o via e o chamou-me pelo nome. Mas ele estava tão atordoado com o prêmio, já sonhando qual seria a primeira coisa a fazer que esqueceu o velho!

Os dias e anos passaram e Gumersindo fez questão de esquecer da vida meio sofrida que tinha, mudou-se de cidade e fora morar em uma vila de casas finas, afinal tornara-se um endinheirado.

Certo dia precisou de um jardineiro para cuidar da paisagem de sua mansão, pois não estava contente com a aparência da mesma, vários responderam ao anúncio colocado pelo seu governante particular

Do novo empregado Gumer mal sabia o nome, porém vendo o fruto do seu trabalho ficou inquieto, em tão pouco tempo a aparência de sua mansão mudara totalmente.

Até que um dia numa manhã de sábado ele trocou algumas palavras com seu jardineiro.

– Bela manhã, não é? Disse Gumer.

– É mesmo, tem feito um tempo bom para as plantas nos últimos dias, sol de manhã e tempo fresco a tarde.

– Posso te perguntar uma coisa ? Perguntou Gumer.

– Claro ! Respondeu o jardineiro.

– Tenho a impressão que eu te conheço de outro lugar …

– Impossível ! Nossos mundos são bem diferentes, sou de origem humilde, certamente nunca nos encontramos.

– Minha origem também não é sofisticada, tive uma onda de sorte que trouxe esta vida que tenho.

– Desculpe falar senhor, mas penso que sorte não existe, o que existe são trocas. Trocamos uma coisa de valor por outra também de valor. Disse o simples jardineiro.

– Como assim? Argumentou o Gumer.

– Veja, eu troquei a possibilidade de uma vida abastada e de muito status, por todos os dias estar em jardim florido, as duas tem seu valor, ‘sorte’ a minha ser jardineiro… Brincou seu Antonio.

O tempo passou e Gumer mantinha-se acabrunhado com relação ao seu Antonio, os jardins cada vez mais belos, sua mansão cada vez mais linda e ele Gumer, cada vez mais triste.

Pouco tempo depois de ver sua rotina modificada pelo dinheiro, ele passou a angariar também alguns problemas.

Abandonara seu antigo trabalho e com toda a dinherama investida dedicou-se ao ócio.

Sua esposa e seus filhos entraram em sociedade com a Ócio S.A.

Hermelinda dedicava-se as unhas e cabelos e as sacolas. Seus filhos apesar de estarem nas melhores escolas tinham muito pouco a apresentar de conteúdo.

Muito tempo passou seus filhos cresceram, tornaram-se jovens vazios cheios de nada, sua esposa já não era sua esposa definitivamente, pois nem fisicamente dava pra reconhecer tamanha quantidade de alterações em sua plástica.

Todo este ócio e gozo tem seu preço, agora Gumer já não era tão rico, ele nunca foi bom pra lidar com dinheiro, nem quando era pouco, que dirá no muito

Entrou em algumas sociedades e perdera muito do seu capital.

As coisas começaram a sair do controle e sua vida começou a desmoronar, sua esposa muito bem relacionada, no ‘high society’ percebendo o barco à deriva com enormes buracos em seu casco, pulou para outro barco bem abastado, arrumou um outro namorado rico e levou consigo seus filhos, que já estavam também descontentes pelo fato do pai não conseguir bancar suas proezas.

E assim foi que ele foi se desfazendo de tudo, quando por fim passou ter uma pequena renda que lhe sobrara e uma casa simples, as grandes casas desapareceram, os suntuosos jardins foram trocados por uma única roseira e algumas margaridas.

Porém somente uma condição não mudou, seu jardineiro não o abandonara, a cada semana ia cuidar de sua roseira.

Já bem envelhecido e bem doente, o jardineiro veio ao seu leito, ele já não pagava seu Antonio havia muito tempo.

– Que sorte a minha! Ironizou Gumer! Fazendo referência àquela conversa que tivera no passado com seu Antonio.

-Realmente, tirou a sorte grande! Brincou seu Antonio com sorriso sarcástico.

-Quem é você seu Antonio, que ainda depois de tudo ainda vem cuidar do meu jardim? Perguntou tossindo de forma fraca.

-Quem te disse que cuido do seu jardim? Estou cuidando da minha sorte grande!

-Como assim?

-Da sua vida, você é o último que venho buscar, sua mulher e filhos já são meus!

Neste momento o rosto do seu Antonio se transfigurou, vira a face daquele professor na lotérica e depois vira a figura mais diabólica que sequer conseguiria imaginar.

-Então é você!! Falou já de sobressalto e quase sem vida.

Pulara da cama suando, nem acreditava.

-Que sonho! Pensou.

Tomou seu banho e trocou-se, sua mulher fazia o café e ele correu e abracou-a e disse:

-Minha vida!

Sua mulher ficou assustada e ia dizendo:

-Daria tudo…

Foi então que Gumer delicadamente pois sua mão fechando sua boca e em seguida beijando-a disse:

-Nem pense isso!

Marcio Lago

Imagem do post gerado por IA, só porque sou péssimo em artes gráficas!

8 Comments

  1. Roseni do Lago Talioli

    Gostei Marcio.

  2. Nathália de Almeida

    Muito bom!! Obrigada 🙏

  3. Neide Silva

    Sua criatividade é muito eficaz, prende o leitor e, no final, surpreende. Gostei! Bora para outros.
    Neide Silva

  4. Clara Lago

    Queria uma continuação! Hahahah muito bom

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